A escritora Clarice Lispector trocou dezenas de correspondências com amigos, marido e irmã, desde a década de 1940 até pouco antes de morrer, em 1977. Uma seleção dessas cartas está no livro Correspondências (organização de Teresa Montero, ed. Rocco). Em uma delas, ela aconselha a irmã, Tânia Kaufmann, a mudar, mas sem perder a própria essência.

"Berna, 6 de janeiro 1948 (...)
Tânia, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar
qualquer espécie de vida e continuar a mesma.
Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe
qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como
lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é
que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a
gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às
circunstâncias. Depois de uma pessoa perder o respeito de si mesma e
o respeito de suas próprias necessidades, depois disso fica- se um
pouco um trapo. Eu queria tanto, tanto estar junto de você e
conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que
há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a
si mesmo. (...) Para me adaptar ao que era inadaptável (...) tive
que cortar meus aguilhões, cortei em mim a força que poderia fazer
mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. (...)
Não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma
pessoa que fez pacto com todos, e que se esque ceu de que o nó vital
de uma pessoa deve ser respeitado. Minha irmãzinha, ouça meu
conselho, ouça meu pedido: respeite a você, mais do que aos outros,
respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você –
respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor
de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie
uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver."
Clarice Lispector

 

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